Caim & Abel
28.11.03
 
Coisas que gosto e uma que detesto
Gosto, pronto. Gosto e assumo que gosto.
Gosto de zé-ninguéns que partem de terras assim como Vila da Feira, Oiã, Oliveira de Azeméis, e que rumam à capital e, anos mais tarde, graças ao seu esforço e talento (e ocasionalmente com o empenho de uma senhora da sociedade), logram alcançar o sucesso em áreas normalmente muito criativas como design de cabelos, sapatos com design, design de comida e design em geral. (Não confundir com aqueles futebolistas originários de bairros de periferia que se tornam milionários só porque dão uns chutos na bola, sem qualquer intuito de elevar a formação do povo mas antes embrutecendo-o e embotando-o).
Gosto de programas de televisão que dão a todos a oportunidade de alcançarem o sucesso em áreas tão diversificadas como cantar, dançar, cantar, etc. A televisão, quando bem usada, é uma arma poderosa ao serviço da democracia, permitindo a todos cantar, dançar e cantar. Gosto.
Eu próprio venho de uma família humilde, sem posses. Os meus paizinhos trabalharam grande parte da sua vida para um senhorio ingrato que só descansou quando os expulsou das suas terras com uma mão à frente e outra atrás. E hoje, não obstante, eu sou o que sou. Um Eduardo Beauté da floricultura, um João Rôlo dos fetos, uma Bibá Pitta dos bolbos.
Mas com a mesma franqueza digo que não gosto daquelas pessoas que desdenham a força emergente que brota do povo, que goza e que achincalha uma pessoa só porque vai no seu carro a ouvir com satisfação e gáudio o Tony Carreira ao Vivo no Pavilhão Atlântico, os pelintras invejosos e falidos que andam nos seus bêémes a caírem de podres e desdenham dos nossos Mercedes só porque os não podem comprar. Ah, como os detesto, a esses.

Abel

27.11.03
 
Estou alegre.
Então o meu irmãozinho deu em florista!!! Se calhar anda pelos restaurantes a perguntar "Quer frô? Quer frô?....qualquer dia tem uma marca de roupa com o nome da antiga Petrogal, espalhado por tudo o que é paragem de autocarro.
Ou melhor ainda. Voltando à sua área profissional, cria o seu próprio Franchising com a marca a “Loja da Rosinha” e vende-o por 5.000 contos a donas de quiosque, que não sabem o que fazer ao dinheiro da indemnização do despedimento dos consortes e sempre tiveram o sonho de ter uma loja no Shopping. Ou num Outlet.
Esta é a prova do carácter mercantil da esquerda. Sob a capa fraterna do socialismo, vão fazendo pequenos negócios de retalho, pequenos investimentos bolsistas em nome da mulher (sempre em derivados, nunca em acções) pequenos biscates sem recibo, tudo para também eles poderem ter o famoso, o sublime, aquele que nos denuncia como filhos do mesmo pai: o Mercedes. (até abandonaram o Benz só para provar que são agnósticos, os hereges)
Resumindo, não temos o BMW porque é de direita: é um alemão emproado cuja assistência é caríssima (gasta-se dinheiro e ninguém nos vê a fazê-lo). Mas temos o mercedolas que também é alemão, tem “categoria” e sempre é um carro associado à luta de classes, ver taxitas.
De qualquer forma devo confessar que fico contente com esta condição rosa do meu irmão Abel. Fico alegre (gay, portanto) e surpreendido. É que eu sempre pensei que ele fosse guarda.

 
Cóito
Al-petúnias, begónias degoladas, malmequeres-al-jaezira, margaridas-burcas-do-deserto, papoilas-alqueida-molotov... O mundo é um jardim e está hoje suspenso das minhas criações florais como há três mil anos estava suspenso das mãos da Lili Caneças, qual bolinha colorida para ela brincar. Claro que há muito deixei a bela Bagdad onde aprendi tudo o que sei sobre a arte floral mas onde nem sempre é fácil subsistir, sobretudo com os maridos a insistirem (violentamente, grande parte das vezes) em pagar-me os ramos de flores para oferecerem às mulheres com as próprias mulheres. Ao fim de algum tempo, a situação de entregar um ramo e receber mais uma mulher de pagamento tornou-se insustentável. É que as mulheres, além de desvalorizarem a um ritmo verdadeiramente alucinante, levantam uma série de problemas por causa dos trocos. Sobretudo quando é necessário arredondar para uma perna ou um braço.
Daí que decidi partir em busca de outras paragens onde – marketing assim o aconselha – o exotismo da minha oferta poderia dar bons frutos ou, com mais propriedade no meu caso, boas flores. Só existia um jardim capaz de nos acolher, a mim e aos meus bolbos, e escusado será dizer que foi em Portugal que desabrochei plenamente.
Não me enganei quanto às minhas expectativas de êxito. Rapidamente descobri que aqui o sucesso é uma benção socialista, o cúmulo democrático, o hino igualitário que junta a uma só voz trolhas, médicos, apresentadores de televisão, mulheres-a-dias e vendedores de seguros. E eu tornei-me no seu arauto. Mas sem nunca descurar a minha responsabilidade social. Sempre que posso faço passar a minha mensagem nas páginas da chamada imprensa séria e já fui capa de revista com a citação “O que eu quero é um mundo melhor e mais justo para todos”. Foi lindo e ajudou bastante a promover duas das minhas criações mais recentes, o Arbustus Blairis e o Cactus Bushus.
Entretanto, o paizinho continua a aparecer-me em sonhos com os seus sábios ensinamentos: “Ó filho, ó predilecto, ó bem-amado, ó pedaço de mim, ó tu que morreste às mãos do inominável (não, não é o Valdemort), ó tu que ressuscitaste incógnito algures, ó progenitado da minha afeição, ó príncipe dos hortos, ó júlia florista, ó...” – e eu chegado a esta parte, com tanta interjeição e evocação, já mudei de sonho e portanto nunca chego verdadeiramente a beneficiar dos seus ensinamentos. Mas que ele está sempre presente, ai isso ele está. O pior é que começo a pressentir uma outra presença, essa sim malévola, insidiosa como uma serpente, clamando uma estranha vingança que não entendo. E os sinais dessa ameaça são cada vez mais fortes, mais frequentes, mais aterradores. A noite passada, voltava eu a casa de um workshop interessantíssimo sobre o enxerto de hortênsias em caules de gerberas, e, saído de nenhures, um medonho cão de três ou quatro cabeças passou por mim correndo esbaforido, com uma expressão de terror estampada nos rostos, latindo lancinantemente: “Caím-caím!”. Não percebi.

 
Intróito
Eis Caim, o filho de Adão. No dia em que acabei de ouvir o Nicolau dizer “ai os, imortais, os imortais”, reconheci ser o sinal de que estava à espera. Nos últimos 10.000 anos vivi escondido. Perseguido pelo Complôt. Sim, leram bem, o Complôt. Não é a mentira do século, é a do milénio. Ou melhor, dos milénios. Uma encenação familiar que segundo “o patriarca e o seu favorito” serviria apenas para fugirmos à taxa do imposto sucessório e receber calmamente o dinheiro de seguro. Mas quando os jornais caíram em cima, a solução foi muito rápida: fraticídio. E quem dos dois será o fratricida?, Obviamente o que está mais à direita. O que criou os papiros “Israel hoje”, o que se manifestou contra a interrupção voluntária da monogamia, o que ajudou a construir os colonos nos territórios Fenícios ocupados. E claro, para o bem e paz regional, numa altura em que da terra dos faraós sopravam ventos de mudança “ de cariz liberal”, o outro filho de Adão, que infelizmente também tem a palavra passe deste blog, era o mártir ideal. E assim se fez história. Esqueceram-se foi de contar o resto. De como o Patriarca ficou com a indemnização. De como o favorito, com uma nova identidade, foi estudar jardinagem para Bagdad, através dum despacho sacerdotal. De como eu tive que fugir escondido numa galé para uma terra de ninguém, onde só havia nortada, vinho e gente orgulhosamente só. De como a história tinha criado a sua maior cabala em que era eu o escuta traidor.

Pois bem. 10.000 anos depois (sensivelmente), a mão direita está de volta para esgalhar aquela que irá ser a maior vingança de sempre. Amputar da sociedade em que vivemos todas as mentiras, todos os embustes, todos os bonzinhos que nestes milénios vêm construindo “um mundo melhor e mais justo para todos”. Acabar com esse meus sobrinhos degenerados que criaram o estado social de direito, o centro esquerda católico, as revolução vermelhas, o dever de auxílio, o subsídio de Férias e de Natal, as fogueiras de praia ao som da guitarra (com a excepção das do corpo nacional de escutas e dos grupos de jovens do YMCA), os direitos das minorias, os vibradores e tudo o mais que ao longo destes milénio nos fez como somos.
Acabar finalmente com aquilo a que os italianos sabiamente chamam "la sinistra".
E fazer o ajuste de contas final. Um duelo à vista de todos que vai repor a verdade sem a protecção do paizinho.
Agora sim, vai começar a verdadeira história dos filhos de Adão.


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