Caim & Abel
30.1.04
 
imposições do mercado.
Os nosso leitores pediram. Os espanhóis, a quem estou a tentar vender a minha quota do blogue, exigiram. Para a semana, janela dos comentários.
 
(sete)
”- Sabes Arlete, desde que cheguei dos States e te vi novamente, assim lúbrica e esplendorosa, que tem crescido em mim uma enorme vontade de deixar de ser… contratenor. Depois do acidente, optei por um caminho que sempre tive como recto. Uma opção inquestionável e absolutamente inconcussa. E talvez por medo ou falta de confiança, fui-me habituando a atirar tudo para trás das costas, inclusive as dúvidas. Mas agora, olhando para ti, quem sabe se eu não me daria bem com um Donizetti, um Bellini, ou mesmo um Verdizinho, de vez em quando???”.
Com a voz a descobrir graves nunca antes atingidos, David pegou na mão dela e disse-lhe com firmeza:” Arlete, achas que eu conseguiria ser tenor, ainda que ligeiro?”
Arlete, que sempre fora uma rata de biblioteca, disse-lhe baixinho com um sorriso matreiro:
“- David, vai à FNAC, compra “O Gato e o Rato” do Günter Grass e lê atentamente o início. Lá, tu irás encontrar a resposta para todas as tuas dúvidas.”
(não perca o último episódio)

28.1.04
 
(seis)
De volta a Matosinhos, David era agora a estrela principal dos ciclos de música contemporânea. Na primeira fila, para além dos pais, estavam todos os seus amigos: o Miranda e sua extensa família, o Manel com as esposas e Arlete, uma jovem peixeira com quem David tinha tido algum nível de intimidade ainda antes do fatídico Capri-Sonne. Todos radiosos no Salão Nobre dos Paços do concelho, a ouvir a sua famosa interpretação da “Sequenza nº3”, do Luciano Berio. David era o único cantor masculino capaz de gritar conforme a versão original do compositor.
À noite, depois do jantar, David e Arlete foram dar um passeio higiénico pela doca-mar. Arlete era especialmente fogosa. Tinha seios em forma de desfiladeiro, uma anca parideira, penugem loira nos braços e cartilagem dura em volta dos joelhos. Para além disso, transbordava cheiros intensos e indecifráveis, que estavam a deixar David estranhamente excitado. A certa altura da viagem, David aproximou-se de Arlete e promoveu um pequeno contacto físico. Depois do pedido de desculpas, David disse uma frase que nunca na vida pensou dizer a uma mulher…
(calma que está quase)


26.1.04
 
(5)
Quando David chegou ao quarto, não queria acreditar: Bongo, “o bom sabor da selva”, deitado no meio da cama.
“- Ahhhhhhhhhh…. Que brincadeira é esta??? Ahhhhhhh.” Gritou ele, sempre em leggato.
Mais uma vez, a vida de David iria ser trespassada por um refrigerante sem gás. Continuou a gritar, enquanto as lembranças recalcadas do Capri-Sonne gelado lhe inundavam a memória.
Mais calmo, mas ainda desconfiado, aproximou-se da embalagem e deu-lhe um pequeno toque. Era uma das novas, criadas logo após a aquisição da marca pela Compal. Uma embalagem enorme, alongada, torneada nos cantos e num tom acastanhado escuro, como são todas as de sabor “mix-tropical.” Com o toque, ela mexeu-se. David deu um salto e voltou a gritar. Mas desta vez o susto durou pouco: era apenas o movimento ondulatório do colchão de água. Então, David pegou na embalagem com muito cuidado. Com o polegar, apertou a cavidade superior e esticou a embocadura, descobrindo a frase: “Abra por aqui”. Ao mesmo tempo, a outra mão escorregou lentamente para a base, ainda com restos de suco, que parecia mais mole e flexível e onde o odor a Mamão, típico dos mix-tropicais, estava muito presente.
Inebriado, conseguiu ler uma frase manuscrita que dizia:” Parabéns, David. Vais voltar à terra que te viu nascer.“
(epilogue is coming...is coming)

 
Abel atestado.
Um pequeno interstício só para confirmar que, de facto, Abel foi ao médico. E é também verdade que foi por indicação deste que o meu caríssimo co-lateral deixou de, temporariamente, postar. Não se trata pois de mais uma baixa fraudulenta, daquelas a que Abel recorre frequentemente. Não, esta ausência é perfeitamente legal e está devidamente atestada por um conceituado cirurgião, especialista em remover sinais de pele…
23.1.04
 
(quarto)
… Il mioooo cuooooore! (aplausos)
“- Pronto, Sr. Liberace. Esta foi a última ária que cantei esta noite,” disse David. E continuou: “Da ópera Rinaldo, de Handel, ouviram Cor Ingrato. Espero que tanto o Sr. Liberace como o Sr. Dick e todos os seus ilustres convidados tenham apreciado a minha interpretação.”
A plateia olhava para David contente. Liberace levantou-se e disse carinhosamente: “Olha David Daniel, eu adorei as tuas árias. Já o Dick preferiu as tuas áreas” (risos, gargalhadas, gritos, saltos, lágrimas de riso, achaques respiratórios que duraram exactamente 2 minutos e 46 segundos).
Já recomposto, Liberace volta a falar:
- Bom, está claro que o teu portfólio como trolha vai ter como único exemplar a minha piscina. A tua voz merece uma oportunidade. E hoje, acabaste de a conseguir. Vai até ao quarto dos convidados do terceiro andar. Em cima da cama, está uma surpresa à tua espera…
(probably continued)


 
(Nota médica)
O doutor avisou-me: “Se voltar a dar aquilo ao seu irmão, o remédio é mesmo aguentar. É incurável, mas inócuo.”
Aquilo a que o psiquiatra se referia é o que clinicamente se designa por S.B.Q.P.Q.T.A.A.D.P., ou seja, Síndroma do Bloguista Que Pensa Que Tem Audiência e Além Disso Piada.
“Deixe-o. Deixe-o falar. Na maioria dos casos, eles acabam por se cansar e depois caem num estado de letargia silenciosa que pode durar meses. É a parte boa da doença.”
Fica assim explicado o meu silêncio. Estou a seguir o conselho do médico.

22.1.04
 
(III)
“- Começas às 7 e terminas às 5. Uma hora para almoço. Mas cuidado, que isto de assentar tijolo não é para todos.” Estava assim concluído o primeiro contrato de trabalho do artista David Daniel nos States. Por mais talento, postura e domínio do diafragma que tivesse, ele não passava dum ex-comuna suspeito que cantava fininho. No primeiro dia, ainda tentou ser corista num representação manhosa do “West Side Story”. Mas o encenador, amigo de infância do Ronald (esse mesmo) e antigo Capelão dos Marines na Coreia, respondeu-lhe boçalmente: “Vai mas é dar banho ao Liberace e desaparece-me da vista!”
E assim foi. Desanimado, inscreveu-se no primeiro centro de emprego que encontrou e, como ainda tinha passaporte português, arranjou logo no próprio dia um emprego na construção civil. Curiosamente, na nova piscina interior da mansão Rose&Mary, propriedade do casal Liberace.
(sim, sim… isto continua)


 
A saga (II)
Chegado a S.Francisco, David instalou-se em Castro Street. Estranho para quem tinha acabado de fugir da RDA. Mas tinha sido esse o conselho de Raul, um taxista porto-riquenho, que durante a viagem para a cidade, o ouvira cantar baixinho uma pequena ária para contralto do “Retorno de Ulisses à pátria”.
“Nesta rua vais encontrar as pessoas certas. Aquelas que te ensinarão o caminho para os agudos que procuras”, disse ele na despedida. David não percebeu. Ao contrario de Haendel, David sempre se sentira muito seguro em Monteverdi, especialmente na coloratura das notas altas. E pensou: “Mas, alguma vez o Porto Rico se interessou verdadeiramente por arte??? … Nãaaaaaaaa.”
Pelo final da tarde, deu por si parado em frente a uma residência YMCA e, num ritual simbólico, decidiu abrir ao calha um pequeno livro de máximas de Narciso de Miranda, que tinha recebido como prenda de Natal, na primária Nº3. Dizia assim a pág. 31: “As pedras da rua até podem tocar-se. Mas nunca se encostam.”
Dois dias depois, David iria perceber a mensagem.
(continued is to be)


20.1.04
 
A saga de David (I).
Há um amigo de Abel pelo qual eu tenho especial consideração. O seu nome é David Daniel. Consideração e pena, pois a sua vida é marcada por um grande infortúnio. Em 78, quando jogava nos iniciados do Leixões, bebeu uma lata de Capri-Sonne gelada que lhe afectou as cordas vocais. Na urgência do Maria Pia, o médico de serviço deu aos pais de David a mais terrível das notícias: o seu querido filho, que acabava de entrar na adolescência, era agora... contratenor.
Por imposição do PREC, foi obrigado a estudar canto na RDA e a conhecer a vida e obra do grande Farinelli e do menos grande Senesino. Quando o director da Academia Musical de Leipzig implementou o “Programa para a recuperação de Castrati verdadeiros”, David fugiu escondido num navio Filipino que transportava marroquinaria ilegal (couros e sucedâneos) para a América. Acarinhado pela tripulação, conseguiu suportar a lenta e penosa travessia do estreito do Panamá.
2 meses depois, David avistava pela primeira vez a Golden Gate, em S. Francisco. E sentia, bem lá no fundo, que um novo mundo se abria para ele. (to be continued)


16.1.04
 
O pai do Enrique
Em finais de 60, o Generalíssimo chamou-me para um pequeno trabalho. Desde aquela cena em Badajoz, na “civil”, que não estávamos juntos e quando o vi pareceu-me abatido. Encontrámo-nos em Calañas, uma pequena aldeia fronteiriça onde costumava descansar. Primeiro disse-me que estava tudo a rolar, mas aos poucos o velho abriu-se.
- “A esquerda está toda na prisão e mandei a maior parte dos falangistas para o México. O Real Madrid é campeão europeu. O comuna pinta cubos, a filha faz perfumes e os dois são um sucesso mundial. Tanto o Domingo e a Berganza como o Joselito e a Marisol estão melhores do que nunca. Comigo, Segóvia passou de pecado a arte. Mas falta-me qualquer coisa, Caim. Falta-me um verdadeiro símbolo cultural. Uma espécie de Eusébio das gajas, que torne o nome de Castela, perdão, de Espanha, absolutamente universal.”
Estava um domingo calmo de Outono e o velho segurava-me o braço, enquanto atravessávamos lentamente o adro em direcção à igreja. À porta, estava o padre Júlio, com sapatos sem meias, que reconhecendo-nos, acenava gritando: “Hei… Hei”!!!!
Contemplei a cena, fechei os olhos e com um sorriso disse para o meu interlocutor:
-“Ò Franco, acho que tenho solução para o teu problema.”

15.1.04
 
Carta a Solange
Querida Solange,
descobriste da pior forma, e tarde de mais, que Caím é esse redundante porco imundo. Eu já sabia há mais tempo.
Só te quero dizer, Solange, que podes contar com o meu ombro amigo e desinteressado para o que der e vier. Sou testemunha de todas as humilhações por que passaste às mãos dele. De quando ele te obrigava a ler o “Mein Kampf” aos meninos para eles adormecerem. De como os passeios de domingo incluíam sempre um desviozinho a Santa Comba para visitar o berço do ditador. Da sua paixão platónica por Vera Lagoa. De como ele te forçou a seres explicitamente simpática com o Papa Doc e o Mobutu. De como te traiu com a Frau Halga, a Frau Helga, a Frau Hilga, a Frau Holga e a Frau Hulga, apenas por puro capricho vogálico (mas é bem feito porque pelo menos a ILGA agora não o deixa em paz).
Enfim, Solange, mas não foi por falta de avisos.
Mas agora que caíste em ti, não voltes a cair em Caím.

14.1.04
 
Um conto (5 euros)
- Aqui está ele! O Abel sempre adorou este género de literatura. “Muito de mim está espalhado por todos estes livros e revistas”, dizia ele na adolescência. Bom, espero que o plano resulte, senão estou no olho da rua.
Entro no carro e vou disparado para casa. Abro a porta de entrada e subo directamente para a sala. Solange continua a chorar, agora já na fase dos soluços. “Querida, queria que lesses este livro com atenção”, digo eu carinhosamente. Ela pega no dito, olha para a capa, dá um grito exasperado e diz-me furiosamente:
- Enganaste-me neste sofá com a minha melhor amiga, as minhas primas Gininha e Sininha e as três gémeas, filhas do meu padrinho. Tiveste “ligações ocasionais” com metade da minha equipa de volei, com a porteira do prédio que eu trouxe de Cuba e com a menina dos CTT, que vinha entregar o correio 4 vezes por dia. Neste Natal, ofereceste à minha mãe uma caixa de Ferrero Rocher com a inscrição “Pelos bons momentos do quarto 54”, e agora… agora vens-me com um livro cujo título é “Será que sou gay e não sei?”, das Edições Afrontamento???
Tu Caim, tu és um porco imundo.

13.1.04
 
No excuses
Exaspera-me a falta de rigor histórico de Caím, aquele que me matou e que, na sua habitual atitude revisionista, vem agora dizer que tudo não passou de uma encenação para fugir ao imposto sucessório. Desta feita, vem falar de “Fernando” e “Chiquitita” como as minhas predilectas dos Abba. O que, uma vez mais, não corresponde à verdade.
Mas já que ele abriu a caixa de Pandora das minhas preferências musicais, sempre lhe posso dizer que a preferida é “Dancing Queen”.
E sabe que mais, mano? I am what a I am and what I am needs no excuses.

12.1.04
 
ABBA com eles.
Uma das grandes referências musicais de Abel são os ABBA. Desde “Waterloo”, que os dois casais suecos mais famosos do pop deixam Abel num estado de histeria, verdadeiramente lamentável.
Em 78, Abel constituiu com Fernando, na altura seu adjunto-estagiário no Horto da Damaia, o primeiro clube de fãs dos ABBA em Portugal. A paixão era tanta que muitas vezes encontrei Abel fechado no quarto a trautear “Fernando”, deitado na cama. Às vezes “Chiquitita”, mas mais vezes “Fernando”.
Foi então no ano 80 que o milagre aconteceu. Abel e Fernando ganharam, num programa do Julio Isidro, um bilhete duplo para um espectáculo em Malmö.
Vão à boleia com camionistas amigos e no maravilhoso dia 6 de Junho assistem a um concerto fabuloso. No final, e como o bilhete dava acesso ao backstage, correram ambos para os camarins.
Ao cruzarem-se com Bjorn Ulvaeus, o guitarrista loiro do grupo, perguntaram-lhe:E agora ??? para onde é que o grupo vai festejar????
Bjorn repondeu-lhes: Os outros dois não sei, mas eu …eu vou-me pôr na Agnetha!

 
Visita das 15h às 16h, enfermaria B
Hoje, sinto-me uma Margarida Rebelo Pinto acabada de ler no The New Yorker uma recensão favorável do “I’m in love with a popstar”.
Para extravasar a minha alegria, estou a pensar visitar o mano no hospital. Levo-lhe um ramo de cravinas e madalenas para ele molhar no chá. Vou gostar de o ver naquelas batas verdes abertas atrás, tão acessíveis. Será que o meu amigo João Teixeira Lopes me faz companhia?

 
Pequeno reparo
Por acaso, até conheço Brunilde, também conhecida, durante o dia, por José Arlindo. E a sua especialidade é o toque rectal. Prevejo para Caím uma estadia mais prolongada no Pedro Hispano. De barriga para baixo.

 
Os amigos de Abel
A esquerda não perdoa.
Conhecendo o sucesso ideológico dos meus posts, atacaram por baixo, através dum post favorável . Sabiam perfeitamente que esse género de comentário vindo da esquerda me levaria directamente ao hospital. E assim foi.
Dois dias e meio na unidade de reanimação artificial do Pedro Hispano e já só via a famosa luz, o famoso túnel.
Mas a direita também sabe resistir.
A certa altura, começo a ouvir em fundo os acordes do “Quarteto do Imperador” do Haydn. E, claro, lembrei-me logo das belas frases de August Hoffmann ” Alemanha, Alemanha, acima de tudo …acima de tudo no mundo”, que me fartei de gritar em desfiles dos anos 30.
Dei um pulo da cama e corri para o leitor de cd´s, ao fundo do corredor. Era Brunilde, 1,78m, uma enfermeira de Dusseldorf, especialista em aplicações de algálias, que controlava o volume do leitor.
Como estava nu, não foram necessárias apresentações. Ela sentou-se numa mesa de apoio em carvalho francês e, durante o resto da tarde, testamos o Pacto de estabilidade.


9.1.04
 
Suspeito, muito suspeito
Muito estranho. Caím convidou-me para almoçar. O que quererá ele? Matar-me? Não me parece. Já o fez uma vez e não resultou. Admoestar-me sexualmente? Quem sabe... Pedir-me dinheiro emprestado? Nem vale a pena tentar. Encomendar-me um bouquet, será isso? E para que quer ele um bouquet? Estará Caím apaixonado? Nãaaa! Então porque me convidou ele para almoçar? Só se for para eu lhe pagar o almoço... Grande pelintra.
7.1.04
 
7 de Janeiro
Átila é um grande amigo de Abel. Especialista em furto de automóveis, foi durante muitos anos considerado “o Rei dos Unos”. “Eu fugto, mas não goubo”, gostava ele de dizer aos seus íntimos, pois nunca nos seus 15 anos de carreira empregara o uso de violência física.
Átila é feliz. O seu negócio de revenda de automóveis sem identidade prospera. O seu único problema e frustração na vida é, como já perceberam, linguístico. Átila troca dos r’s pelos g’s.
Um dia, Abel perguntou-lhe se não tinha um Fiat Panda rosa-choque para entrega imediata. Átila respondeu-lhe: ”Ó Abel amigo …cagos como esse, só quando o guei faz anos.“
Hoje, na porta da garagem da sua casa da foz está um presente para Abel. Um Panda de 85 em rosa-pérola, Pantone 1767-C.


6.1.04
 
Recordação do Dia dos Reis
A última vez que fomos juntos ao futebol, ainda usávamos bibe e Caím já era benfiquista. Fomos com o Pai. Eu ainda não tinha um clube predilecto, aliás tive sempre muita dificuldade em fixar a minha afeição clubística. Ou melhor, vai variando. Às vezes mudo porque descubro que as camisolas ou os calções de determinado clube tem um padrão que vai mais ao encontro das minhas preferências estéticas. E mais não digo... até porque sei que Caím vai dizer.
Na verdade, detesto futebol. Caím também deve detestar, caso contrário não seria do Benfica. Eu sei que ele escolheu o Benfica porque nessa altura – no começo do mundo – o Benfica era campeão. E manteve-se benfiquista por simples teimosia e orgulho, pois ele detesta dar o braço a torcer mesmo quando é confrontado com o desastre.
Mas essa ida ao futebol foi marcante. Foi no Jamor, um Benfica-Pereiró, final da taça. As esposas ficavam nos carros espalhados pelas matas das redondezas, a fazer croché e a distribuir safanões e sandes de panados pelos filhos mais pequenos. Eva, nossa mãe, tinha ido a um encontro ecuménico integrada na delegação da Juventude Operária Católica.
Caím pertencia à Mocidade Portuguesa e sempre que o árbitro ou um juiz de linha levantava o braço, ele fazia o mesmo e punha-se a cantar o hino. O Pai não parou de lhe dar cachaços durante todo o jogo, ao mesmo tempo que me explicava os lances mais significativos ou me dizia os nomes dos jogadores que prendiam a minha atenção.
Foi então que, entre um cachaço e outro, Caím fitou o Pai olhos nos olhos com uma indízivel expressão de rancor e de ódio. Depois, desviou o seu olhar fulminante para mim, que estava ao colinho do Pai, e murmurou entredentes:
- Vais pagá-las!.
O homem das pipocas ia a passar e eu chamei-o. Comprei um pacote e dei-o a Caím.
- Pronto, já as paguei. Estamos quites.
Para falar verdade, não percebo porque é que esta ida ao futebol ficou gravada na minha memória. Nem o que é que isto tem a ver com os Três Reis Magos.

 
Direito à indignação.
Depois de ver “O regresso do rei”, apercebi-me mais uma vez da hipocrisia da esquerda.
Durante toda a trilogia “Senhor dos anéis”, assistimos a uma perseguição etnica verdadeiramente horripilante, cujas vitimas são os Orcs.
De facto, nenhum dos Orcs têm acesso à escolaridade mínima obrigatória. Vivem todos em condições miseráveis, habitando 7 ou 8 um espaço com pouco mais de 10 m2. Crescem sem o acompanhamento dos pais, sem vida sexual estável e com graves problemas de higiene oral.
Até hoje, ainda não vi um único comunicado do Bloco de esquerda a chamar a atenção para esta situação, que é acima de tudo um problema de integração das minorias.
Por isso, e em sinal de protesto, vou comprar uma t-shirt da BJORK e desfilar com ela no próximo Carnaval, na Nova Zelândia.

5.1.04
 
Ano novo, irmão velho
Ano novo.
Lembro-me de Caím, na sua imensa ganância, tentanto vender restos de ano velho a incautos. Penso que naquela época ele queria fazer carreira como publicitário e estava convencido que conseguia vender qualquer coisa.
Na sua demência, tentava vender pacotes de dias do ano velho, “packs” como ele lhes chamava, persuadindo pessoas simples do campo que aqueles dias do ano passado poderiam ser gozados em qualquer altura do novo ano. Dizia que era uma oportunidade única e muito em conta de se ficar com uns dias extra, para se “fazer aquelas coisas para as quais nunca sobram dias, como fazer esqui, tirar um curso rápido de línguas, ter um affair com uma brasileira num motel” (sic). Mandou fazer uns folhetos e tudo, com tabela de preços e um arrazoado de balelas a que chamava “vantagens inperdíveis”.
Escusado será dizer que ninguém foi na conversa. Ou melhor, conseguiu que a Inspecção das Actividades Económicas tivesse uma conversinha com ele, obrigando-o a nova impressão de folhetos porque imperdíveis estava escrito com n.
Como publicitário, também não foi longe.


2.1.04
 
Voltei de lá.
Basta eu tirar uns dias de férias para o meu “manito de plata” começar a falar pelos cotovelos. Ou melhor, pelas mãos. Os caríssimos não sabem, mas é típico no meu irmão o uso auxiliar da linguagem gestual para reforçar as suas ideias e opiniões. Foi ele mesmo que nos idos oitenta, enquanto escolhia com os amigos o seu curso técnico-profissional (CITEX, CETANEX ou Academia Isabel Queirós do Vale), inventou a famosa expressão feminina “isto é assim”.
É por tudo isto que uma das coisas que nunca perdoei ao pai foi não me ter dado uma irmã a sério. Uma Miléne ou mesmo uma Neide, com montes de amigas e que usasse roupa interior de catálogo.


Powered by Blogger