Caim & Abel
23.3.04
 
O rabo entre as pernas
1. Estava fácil de ver que a coisa não ia longe. A coisa, como a mentira, tem pernas curtas. A coisa é ignóbil, é fedorenta. A coisa exige matéria, doses astronómicas de matéria para consumir. A coisa inflamou, inchou e estourou. A coisa, estava fácil de ver, tinha o fim anunciado no próprio instante em que começou. A coisa está feia.
2. Volto para a tumba pelo meu próprio pé. Não deveria ter saído de lá, é certo, mas volto com um quase sentimento de alegria. Espanha volta ao sono dos justos. Kerry espreita a cúpula branca. Blair tem a mulher que tem. Durão tem o Cavaco e o Santana.
3. A vida pode ser uma mortalha mais apertada do que a morte. Aqui estou melhor, mais à vontade. O negócio fica bem entregue, os 30 anos da revolução hão-de trazer algum lucro. Fico em paz.
Sei que Caím não andará longe. Procurem-no nos fundos do quintal da tirania. Espreitem-no no armário das traponas do capitalismo. Surpreendam-no na copa, a jogar às damas, com os escroques nazis que restam. Cutuquem-no no buraco vago de Saddam. Ele estará em todos esses sítios. Com o longo e bífido rabo entre as pernas.

19.3.04
 
Tide. Skip. Xau.
... e agora, o que é que eu vou fazer? Como pude eu repetir a história. Como pude eu trespassar novamente esta carne que também é minha, com a mesma faca que usei no passado. A faca que tem os dois mais perversos e ignóbeis dos gumes: a traição e a inveja. Como pude eu levar a sério a provocação efeminada de que ia a Espanha contar ao sapateiro os meus negócios com a Zara. Como pude eu esquecer os momentos divertidos que passamos juntos (dois ao todo, o primeiro quando me disse que ia para a tropa e o segundo quando me apresentou o seu secretário pessoal). Como é que no momento da facada, apareceu outra vez o Tintoretto com um pincel na mão a pedir-me os direitos de imagem.
Agora, só há uma coisa a fazer. Fugir para o Iraque e esconder as provas do crime. A começar por este blogue.
Adeus.


11.3.04
 
Mica-me este.
Por motivos profissionais, tive que passar os últimos dias em Lisboa. Quando faço viagens deste género (185Km/hora), levo sempre um poeta comigo. É uma estratégia infalível para quando aparece a brigada da GNR. Depois de me mandarem parar e de me pedirem os documentos, chega a altura da pergunta inevitável: "Então, o que o senhor leva aí no carro?". Nessa altura eu só tenho que responder calmamente:" Um poeta." O agente olha atentamente para o carro e diz a frase esperada: "Hãaaa... um poeta, num Yaris Verso!!!"
Seguem-se 10 minutos de gargalhadas, escárnio, galhofa e zombaria, a solo (agente-moto) ou em duo (agente-automóvel).
Depois reforça: "Vão dar uma volta ao Largo Camões, ou tomar uma bica com o Pessoa??" (mais 5 minutos de gargalhadas, escárnio, galhofa e zombaria). No final, enquanto vai limpando as lágrimas e dominando os soluços, ele invariavelmente diz em remate: "Bom... por hoje escapa... mas prá próxima venham mais devagar que é para não atropelar as palavras...( 3 minutos do mesmo).
5.3.04
 
Este homem é um marco.
Ontem, por motivos profissionais, passei a tarde numa amena conversa com o Avelino. Estou a preparar a estratégia de ataque à Câmara de Amarante, para o qual até já criei um slogan: "Avé Lino, Avé".
Infelizmente, Avelino anda arrasado com os últimos dias. Entraram-lhe em casa (Estádio Avelino Ferreira Torres) e roubaram-lhe dois penaltys, com a família toda a assistir, impotente. E para não lhe roubarem um terceiro, teve de se socorrer de legítima defesa, perante a total inoperância dos agentes da GNR, chamados ao local. É claro que, ferido na sua auto-estima e em desespero, começou ele mesmo a partir o que era seu. Mas Avelino é um herói e sabe bem dar a outra face: não só abraçou o larápio como o protegeu perante os familiares enraivecidos e ávidos de sangue.
Só que este pais não respeita os seus heróis. No dia seguinte, os fariseus da TV perseguiram-no. E Avelino, mais uma vez, deu a outra face. A uma, ofereceu o seu salário por inteiro. A outro, relembrou-lhe a afectividade, o humanismo e a metodologia do pensamento socrático: "- Você é um burro, não percebe nada". E se tudo isto não bastasse, esta semana começou a responder em tribunal por ter acolhido gratuitamente trabalhadores ilegais na sua propriedade Jamaicana.
Quando já na parte final da conversa eu me preparava para lhe dar uma palavra de apoio, Avelino disse-me irritado: "Ó Caim, fecha-me essa caixa de comentários e vai pregar pra tua casa."
Segui o conselho. Amanhã de manhã, vou pendurar prateleiras.
2.3.04
 
O Faqche.
Há uns anos atrás, quando o LICUD me pediu provas de lealdade, fiquei entre a espada e o muro: "Lamentamos Caim, mas o teu contributo para a causa está muito aquém do teu passado de glória. Hoje, o valor da tua avença mensal exige uma prova real do teu empenho."
Curiosamente, era uma altura em que o mercado do médio oriente começava a ser pouco rentável para o negócio, principalmente quando esses esfomeados das antigas Stasi e KGB começaram a oferecer preços abaixo do custo. Um comportamento deplorável que deu origem a uma nota de protesto dentro da ordem, ainda por diferir.
Só que neste caso, a ligação afectiva à terra mãe é sempre mais forte.
Então, e retornando à espada e ao muro, decidi escolher o muro. A ideia foi aclamada e, ainda nesse ano, tive um bónus de produção. Ou melhor, de criação.
Ontem, enquanto assistia na TVI ao festa anual dos nossos irmãos Goldwin e Mayer, recebo um fax que dizia: "Magnífico Caim, há Mel estragado mesmo ao lado da nossa colmeia..."

1.3.04
 
Porque vi os Óscares na TVI até ao fim
1ª razão: esperava que no final desse um episódio dos “Morangos com açúcar”.
2ª razão: esperava que nos intervalos dessem mais episódios dos “Morangos com açúcar”.
3ª razão: podia ser que o Bin Laden estivesse lá disfarçado de Sofia Alves com um cinto de explosivos disfarçado de cinto D&G (daqueles que o Joaquim Monchique usa) e fizesse ir pelos ares aquilo tudo – ou, pelo menos, que soltasse uma bomba de mau cheiro. Assistir em directo ao histerismo de todas aquelas superstars capitalistas (sobretudo se fosse mesmo uma bomba de mau cheiro) sempre seria mais emocionante que em diferido.
4ª razão: não sabia que à mesma hora, no Herman Sic, uma verdadeira bomba de mau cheiro estava a ser largada. Essa sim, vou ter que ver em diferido.


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